Confessei, aqui, um crime, há algum tempo.
À noite, um pesadelo me trouxe a vingança daqueles que tirei a vida.
Enquanto tentava dormir na minha cama, no sonho, eu era atormentado na sala por duas criaturas aladas. No início, aparentavam ser insetos pentelhos comuns, como o mosquito que rodeia a pessoa em busca de menos de uma gota de sangue. As investidas aéreas, porém, não podiam ser evitadas, o que era desesperador já que eu tinha a sensação de que aqueles ataques seriam fatais. Seres demoníacos controlavam a situação, infestando de medo um ambiente que era incontavelmente mais espaçoso do que seus corpinhos ferozes e violentos. Sua cor verde, brilhante e metálica tinha a tonalidade de um pavão do tamanho de uma mosca - era fosforescente - e, só assim, eu conseguia enxergar os pontos de que me esquivava. Se escapava ileso de um "vaga-lume sem interruptor", não adiantava, pois a outra mini-besta surgia, e me guiava em passos de dança não ensaiados de aflição.
Por um momento, pousaram, paralelamente, sobre a verticalidade de uma parede branca. Abriram suas asas. Eram membranas coloridas, muito mais sortidas do que a paleta de cores de um computador de boa qualidade. Cada um dos bichos possuía um desses surpreendentes pares de asas em forma de concha, que afunilavam-se em gargantas que lembravam a boca de uma jarra, e ligavam-se a seus corpos diptéricos.
Enfim, pousados, um deles defecou.
Pude notar isso porque o grosso cortou o ar com a mesma sutileza do derramar intestinal da ave: gentil e silenciosamente, mas robusto, quase em câmera lenta. A regra só não foi seguida no quesito "discrição", já que a pasta provinha da dimensão de um cu de inseto.
Me pareceu uma afronta!
Novamente, tive que ser impiedoso.
Será que existe pena para um mesmo crime, que foi cometido em sonho?
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